Como explicar a arquitetura? Como representá-la e mostrá-la a alguém, dizer como um prédio é belo ou interessante? Um arquiteto pode logo responder ser por meio de plantas, cortes e elevações, que podem ser entendidas por quem às saiba ler, já para os mais leigos no assunto, o modo mais fácil de compreender um edifício ou um lugar é por meio de fotografias. Porém, nem o desenho arquitetônico mais detalhado ou a fotografia mais bem enquadrada transmitem melhor a arquitetura do que ela mesma. É impossível que se perceba a real escala ou os efeitos da luz no ambiente por imagens e desenhos, para se perceber realmente um edifício ou um lugar é preciso se inserir na obra e experimentá-la, só assim se apreenderá realmente suas qualidades, defeitos, texturas, iluminação, escala, conforto térmico, acústico, funcionalidade e beleza. Não se conhece um espaço por fotografias ou desenhos, é preciso experimentar para conhecer. Este blog procura descrever em palavras e imagens experiências que tive em lugares de São Paulo durante uma viagem de estudos do curso de arquitetura promovido pela professora Bia Cappello em sua disciplina, onde as obras mostradas em sala de aula puderam ser experimentadas e percebidas com o olhar de usuário do espaço. Aqui procuro verbalizar o que percebi nos lugares que mais me chamaram atenção nessa viagem, que aconteceu do dia 27 de novembro de 2009 ao dia 02 de dezembro do mesmo ano.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
SESC POMPÉIA - ARQUITETA LINA BO BARDI
“...um público alegre de crianças, mães, pais, anciãos passava de um pavilhão a outro. Crianças corriam, jovens jogavam futebol debaixo da chuva que caia dos telhados rachados, rindo com os chutes da bola na água. As mães preparavam churrasquinhos e sanduíches na entrada da Rua Clélia; um teatrinho de bonecos funcionava perto da mesma, cheio de crianças. Pensei: isto tudo deve continuar assim, com toda esta alegria.” Lina Bo Bardi
O sucesso dessa obra, que é intensamente utilizada até hoje, como pude comprovar, deve-se ao talento de Lina como arquiteta, projetista, e, sobretudo, à sua capacidade de percepção, que enxergou em galpões abandonados de uma antiga fábrica, o potencial de se transformarem em uma “fábrica de cultura”.
Continuando a caminhar na movimentada rua interna de paralelepípedos da Fábrica da Pompéia, que está entre os dois belos pavilhões fabris que abrigam o restaurante, a área de exposição, a biblioteca, o teatro e as oficinas, chegamos até um grande deck de madeira onde encontramos crianças brincando e jovens e idosos tomando sol, parecia uma verdadeira praia, à esquerda podia-se ver melhor aquela grande estrutura de concreto aparente que antes se anunciava por entre os telhados dos pavilhões. É o conjunto esportivo, que é composto por duas torres que se “abraçam” por passarelas, também de concreto armado aparente. A torre de esportes foi projetada para abrigar quatro quadras, cada uma com as cores de uma estação do ano, e uma piscina coberta no térreo. Hoje, uma das quadras, a quadra outono, foi descaracterizada para dar lugar a uma academia de ginástica no mais belo estilo “classe-média”, com uma textura falsa de madeira na parede formando a siga SESC que fariam Dona Lina arrepiar de desgosto, logo ela que dizia abominar todas essas texturas artificiais burguesas, a academia parecia acabar de ser inaugurada e a meu ver, não prometia durar muito, o que me espanta e preocupa é como foi autorizada essa descaracterização.
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA USP – ARQUITETO VILANOVA ARTIGAS
E a aula de arquitetura inevitável que se tem apenas por vivenciar aquele espaço projetado por Artigas veio acompanhada por uma aula de patologias do concreto e restauro do patrimônio moderno, pois o prédio está em péssimo estado de conservação e a cobertura apresenta sérios problemas de infiltração. Por esse motivo nossa professora, Bia Cappello, convidou para uma conversa a professora da FAU-USP Beatriz Kuhl, que além de apresentar os problemas do prédio, também nos apresentou as possíveis alternativas para o restauro da cobertura da FAU.
Beatriz Kuhl nos disse que os problemas existentes hoje no prédio já começaram em sua construção, que foi sucessivamente adiada e paralisada durante a década de 1960, essa não continuidade da execução da obra gerou problemas como infiltrações acarretadas por juntas frias na concretagem da cobertura, ou seja, antes mesmo de ser inaugurado, o prédio já apresentava infiltrações. Além disso, foi descoberto recentemente após a abertura dos pilares internos, que foi executada somente a metade da tubulação de escoamento das águas pluviais, onde era pra se ter dois tubos de escoamento de água, há somente um. Depois de inaugurado foram somados os anos em que não se houve nenhum tipo de manutenção e as posteriores sucessivas impermeabilizações mal executadas que não resolveram o problema e geraram deformações na cobertura, que hoje, além de deformada em vários eixos, apresenta também áreas de empoçamento de água, infiltrações, inclusive dentro dos caixões perdidos das vigas, e goteiramento, seguido pela formação de estalactites e estalagmites que acontecem pelo desprendimento de calcário que a água faz no concreto.
Ela disse haver projetos para o restauro da cobertura, recuperando as vigas, retirando a água infiltrada e a impermeabilizando novamente. Disse também, existir projetos polêmicos que contam com uma segunda cobertura a ser construída sobre a original. E nessa discussão sobre qual alternativa adotar, mais ou menos invasiva, mas que seja eficiente, nota-se que estão em fase de estudo sobre que medida de restauro tomar, e que a decisão final ainda levará um tempo.
Andando pela FAU pude ver como Artigas pensou um prédio voltado para o ensino de arquitetura, onde cada espaço foi projetado segundo o que ele pensava ser melhor para se ensinar e aprender a profissão de arquiteto. As salas de aula teórica, os espaços de ateliê e até as áreas comuns de convivência como o grêmio e o salão caramelo, tudo ali é funcional e proporcional. Quem dera todas as faculdades de arquitetura, inclusive o nosso Bloco 1I, fossem tão bem resolvidas quanto o prédio da FAU...
PARQUE DA JUVENTUDE - ARQUITETOS AFLALO & GASPERINI E ROSA KLIASS
Quando chegamos ao Parque da Juventude, que foi feito no lugar onde existia o Centro de Detenção do Carandiru, me lembrei de já ter visto aquele parque no livro da paisagista Rosa Kliass, e estando lá, me surpreendeu o modo como trabalhou para transformar as ruínas de uma antiga penitenciária em um lugar tão agradável. Os taludes feitos com os entulhos da demolição, o passeio pela antiga muralha de vigilância do presídio, as ruínas de um dos blocos de celas que nem chegou a ser construído, as referências do passado permanecem em outro contexto. O paisagismo tomou partido do que existia para se fazer um lugar novo sem se apagar o que aquilo foi um dia.
Na área destinada aos equipamentos esportivos, me chamaram atenção detalhes como a grade de proteção das quadras que não cercava e isolava o espaço, mas apenas desempenhava o seu papel de proteger os transeuntes das bolas usadas nas quadras, com sua tipologia fragmentada. Todos os pavilhões e equipamentos do parque obedecem à mesma linguagem, são feitos basicamente de perfis e detalhes metálicos e concreto aparente, o que dá certa identidade ao lugar.
Percorrendo a área de equipamentos esportivos um fato curioso me chamou atenção, um grupo de crianças brincava nas rampas de skate que haviam empoçado a água das chuvas, quando indagadas se o lugar era bom responderam “sim, a água é até quente” e que “parecia até uma piscina de verdade”, ou seja, elas, como usuárias, deram um novo uso a uma pista de skate alagada. Talvez nem soubessem que o skate surgiu em piscinas na Califórnia e que elas estavam sugerindo um novo uso, de uma maneira infantil, em um lugar que havia nascido dessa busca pelo novo. O Parque da Juventude também surgiu dessa mesma premissa de transformar o que já existe em algo novo, com outro uso, aproveitando o que o lugar oferece.
MUSEU BRASILEIRO DA ESCULTURA - ARQUITETO PAULO MENDES DA ROCHA
O Museu Brasileiro da Escultura, de Paulo Mendes da Rocha, é um projeto intrigante, ele consegue ser simples e complexo ao mesmo tempo, simples quanto à forma e solução e complexo no trato com o terreno, na maneira como recria a topografia do lugar. Todo o programa do museu está distribuído em um falso-subsolo que recria os limites e a superfície do terreno e o único elemento que marca o lugar é uma marquise de concreto de sessenta metros de vão livre com apenas dois pontos de apoio. Esse grande prisma de concreto protendido aparente, além de marco visual, também tem o papel simbólico de abrigo e, a meu ver, também é uma escultura.
Todo o espaço procura evidenciar as esculturas que expõe, sendo plano de fundo para a obra de arte, mas sem ser neutro. O paisagismo, assim como a paginação de piso e o próprio edifício criam lugares de contemplação e plataformas de exposição.
Paulo Mendes queria em seu projeto estabelecer uma relação direta com o entorno, se tratando de um terreno de esquina, e o Museu da Imagem e do Som, com o qual o MuBE é vizinho, fazendo da praça do museu uma praça pública. Porém, a administração do Museu da Escultura, mesmo sob críticas, fechou todo o limite do MuBE com grades, e isso acabou com parte do conceito de museu-praça que Paulo Mendes buscava. Mas, má administração a parte, o Museu Brasileiro da Escultura é uma obra de grande valor arquitetônico que impressiona arquitetos e não-arquitetos por sua escala e monumentalidade, e quanto às grades, espero o dia que sejam arrancadas.
PRAÇA VICTOR CIVITA - LEVISKY ARQUITETOS
A história da Praça Victor Civita é bastante interessante, se trata de uma praça feita pela iniciativa privada para recuperar uma área onde antes funcionava um aterro e um incinerador de lixo. A solução dada ao lugar também é bem curiosa, por se tratar de uma área onde há lixo enterrado, o solo não pode ser ocupado diretamente, por esse motivo foi feito um grande deck de madeira onde se encontra distribuído todo o programa, que conta com horta, oficina de educação ambiental, equipamentos de ginástica e um palco onde acontecem eventos freqüentemente, o prédio onde funcionava o incinerador de lixo abriga hoje o Museu da Sustentabilidade.
A praça é muito utilizada por jovens e idosos que ali fazem exercícios físicos rotineiramente e pelas pessoas que freqüentam os eventos que acontecem na área do palco e arquibancada da praça.
A Praça Victor Civita é um belo exemplo de como a iniciativa privada é importante para o desenvolvimento de uma cidade, e de como a sustentabilidade, que é um tema tão discutido atualmente, pode ser abordada de modo real, porque, a meu ver, na Praça Victor Civita a sustentabilidade não é apenas um rótulo, ela acontece desde a esfera ecológica, da iniciativa de despoluir uma área, até a esfera social, de se qualificar um espaço e propor seu uso à cidade.
PINACOTECA DO ESTADO - ARQUITETO PAULO MENDES DA ROCHA
A Pinacoteca do Estado faz parte daquela classe de edifícios que são por si só uma “aula de arquitetura”. A monumentalidade de uma construção do final do século XIX, projetada por Ramos de Azevedo para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, somada à intervenção de Paulo Mendes da Rocha para que o prédio se adequasse às necessidades contemporâneas de uma Pinacoteca, com técnicas e materiais atuais torna o prédio um documento que explicita tanto as técnicas construtivas do passado quanto as do presente, além de ser um manifesto de restauração e intervenção em prédios antigos.
A opção de Paulo Mendes da Rocha por evidenciar a alvenaria auto-portante em tijolos de barro, descascando o reboco do edifício, nos permite ver a técnica utilizada nos séculos passados, a robustez das paredes e os caprichos da justaposição dos tijolos. Sua intervenção, feita com aço, um material industrial contemporâneo, otimizou a beleza já existente na estrutura antiga e dinamizou o uso do espaço. As passarelas de aço ligando os pisos através dos vãos dos pátios, a cobertura de metal e vidro que criou áreas com grande pé-direito e iluminação natural e os elevadores são intervenções que não se confundem com a construção pré-existente e que anunciam a sua data de execução.
E O QUE SE PERCEBE?
Fazendo um apanhado dos lugares visitados e das soluções dadas a cada um deles, o que mais os caracteriza são os espaços semi-públicos e a readequação de algumas áreas.
O espaço público criado pelo vão livre do MASP e o que se quis fazer no MuBE são bons exemplos de como a arquitetura cria, ou pretendia criar, espaços para a cidade, para o uso da população, verdadeiros respiros. Esses espaços semi-públicos também podem ser notados na rua interna e no deck do SESC-Pompéia, no salão caramelo da FAU-USP e no terraço jardim do Centro Cultural São Paulo.
A re-leitura e o re-aproveitamento de certos lugares é sem duvida, a característica mais interessante das obras visitadas. A capacidade que a arquitetura tem de recriar espaços e funções pode ser vista na fábrica de tambores que se transformou na “fábrica de cultura” do SESC-Pompéia, na estação ferroviária que se transformou na Sala São Paulo, na área de um antigo presídio que agora abriga o Parque da Juventude, no aterro de lixo desativado que se transformou na Praça Victor Civita e na readequação de uma construção do fim do séc. XIX para abrigar a Pinacoteca do Estado. Todas essas transformações sendo conseqüência das mudanças que sofreu a cidade e talvez a sociedade.
As soluções arquitetônicas dadas a problemas como a restrição de se construir no térreo, em frente ao Trianom, no caso do MASP, e o recurso de se dividir a torre de esportes em duas, com passarelas ligando-as devido à existência de uma galeria subterrânea de águas pluviais, no caso do SESC-Pompéia, assim como a técnica adotada para se ter uma boa acústica na Sala São Paulo e a solução para se ter menos contato com o solo na Praça Victor Civita, dentre tantas outras, além de serem interessantes por representarem exemplos de bons projetos e soluções, nos dá repertório projetual, e é, sobretudo por isso, que se faz tão importante a vivência desses espaços. Arquitetura se aprende com arquitetura.
REFERÊNCIAS
ARTIGAS, Rosa. ROCHA, Paulo Mendes. WISNIK. Guilherme. Paulo Mendes da Rocha – Projetos 1957-1999. Cosacnaify. São Paulo. 2006;
FERRAZ, Marcelo (org.). Lina Bo Bardi. Imprensa Oficial e Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. São Paulo. 2008;
KAMITA, João Masao. Vilanova Artigas. Cosacnaify. São Paulo. 2000;
RUBINO, Silvana. GRINOVER, Marina (org.). Lina Por Escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi. Cosacnaify. São Paulo. 2009.
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